Era uma vez, numa cidade distante, uma palhaça que perdeu a graça.
Sua graça não era ser só engraçada, mas sim ter sua cor, seus movimentos, seu sorriso, sua voz própria de quem engole grilos e ri durante todo um entardecer...
A palhaça não tinha mais alegria, as lágrimas frias batiam em seu rosto como mariposas que se suicidam no meio das rodovias, elas se lançavam pequeninas na face branca de menina daquela que um dia soube fazer rir.
Sua boca manchada não contava mais histórias, seu cabelo espetado agora enterrado no colo caia sobre o rosto cobrindo-lhe as memórias... Ela não lembrava nada, somente a uma rosa desbotada como que o aroma perdeu.
Cedeu à tristeza, deixou lamber o amor como quem bebe a uma gota fria matando a sede de uma vida que jamais aconteceu. A palhaça era uma ilusão.
Sobrara somente os resquícios da neve pálida que aquecia timidamente seu pobre coração.
Palhaça amargurada, toda sua beleza se rendeu, como num sobressalto de tiro, pulou da face e correu. Ela era desnorteada, apesar de um dia já ter sido feliz.
Ela foi feliz, um dia as cortinas foram vermelhas e foi grande o grito da multidão; um dia, num simples raiar dos poros que enxugam o calor, ela colocou seu melhor vestido, teve milhões de cabelos divertidos, sapatos que atraiam olhares de homens, olhares que atraiam corpos de mulheres, personalidade que encantava toda a gente... Ela era o comentário, ela era a estrela maior de todo o show.
Não fez mais que papel de palhaça, um dia se esmoreceu e idesabrochou.
E tudo perdeu a graça, e o mundo se descoloriu, e as flores nasceram para baixo, e as mariposas perderam as asas, tudo feneceu.
Um dia, talvez alguns minutos, ela foi amada, ovacionada, aclamada...
Seu ar já não era o mesmo, subiu em seu balão fantasia sem o vermelho, amarelo e branco referentes à vida, deu partida e assoprou. Seu pulmão tinha somente gás, o veneno que lhe puseram enquanto dormia. No lugar de sua pintura o arranhar das lágrimas, os olhos tristes sem sonhos, sem alegorias. No lugar do vestido colorido um outro branco espuma encardida d'água, era o que restava da vida que levara durante toda uma caminhada desmedida.
Apagava-se a luz, acendia-se o fogaréu, eram as estrelas quem sumiam quanto mais chegava ao céu. Seu balão tirava o brilho de toda a constelação, não pretendia, era sem qualquer pretensão. Mas não havia mais saída, era ali que morreria aquela solidão... E pronta para saltar pela última vez de seu barco vazio, veio um cometa quente, fervendo de ciúmes de seu fogo corrosivo, cortou-lhe o ventre, o cordão umbilical com sua avoança. Caiu feito pétala, frágil e disforme do alto de um ser que queria ser maior que o próprio sol.
A lua se escondeu de remorso, o sol se eclipsou... A palhaça sem cor, brio, alegria ou graça nunca mais riu, nunca mais amou...
Dizem que sorriu ao encostar no chão antes de se estilhaçar.
domingo, 27 de novembro de 2011
sexta-feira, 5 de agosto de 2011
Te dou
Te dou as estrelas
te dou o brilho do sol
e os beijos do ar
Te dou o azul do céu
e o verde do mar
Te dou as ilusões do mundo
para que sempre possas sonhar...
te dou o brilho do sol
e os beijos do ar
Te dou o azul do céu
e o verde do mar
Te dou as ilusões do mundo
para que sempre possas sonhar...
Folhas...
Houve um tempo
em que as árvores não tinham folhas
dizem que foi um ser quem as inventou
recortou algumas
em meio a um deserto
e com sua saliva bruta
colou-as uma por uma
em cada galho seco no chão
Dizem que a areia fina
cobriu seus recortes de devoção
e emocionada com a fartura
que a ela ele oferecera
fez brotar a partir dali
árvores com folhas
secas
pálidas
úmidas
verdes
vermelhas
amarelas
a Terra ainda era toda deserto
quando este ser as criou
E daquele dia em diante ouve chuva
e a primavera e o outono
viraram estações do amor...
em que as árvores não tinham folhas
dizem que foi um ser quem as inventou
recortou algumas
em meio a um deserto
e com sua saliva bruta
colou-as uma por uma
em cada galho seco no chão
Dizem que a areia fina
cobriu seus recortes de devoção
e emocionada com a fartura
que a ela ele oferecera
fez brotar a partir dali
árvores com folhas
secas
pálidas
úmidas
verdes
vermelhas
amarelas
a Terra ainda era toda deserto
quando este ser as criou
E daquele dia em diante ouve chuva
e a primavera e o outono
viraram estações do amor...
Pesadelo
Acordo em um imenso bosque
é tua voz a que me chama
sigo instintivamente teus passos
pela molhada terra
afundo minhas pernas até os joelhos
afundo mais cada vez que é maior o desejo
ouço tua voz ressoar
como em uma brincadeira
muito mal cuidada
minhas lágrimas rolam
não te vejo...
Grito teu nome em vão
me responde o nada
silêncio profundo no peito
profana situação
de quem está só
Grito insistentemente
depois de rouca fico calada
deito na raíz de uma árvore
e a rogo para que me enterre
ela cuidadosamente abre suas pernas
é como o nascimento de uma alma alada
é tu que sai voando
e me salva deste bosque obscuro
de um pesadelo de almas penadas...
é tua voz a que me chama
sigo instintivamente teus passos
pela molhada terra
afundo minhas pernas até os joelhos
afundo mais cada vez que é maior o desejo
ouço tua voz ressoar
como em uma brincadeira
muito mal cuidada
minhas lágrimas rolam
não te vejo...
Grito teu nome em vão
me responde o nada
silêncio profundo no peito
profana situação
de quem está só
Grito insistentemente
depois de rouca fico calada
deito na raíz de uma árvore
e a rogo para que me enterre
ela cuidadosamente abre suas pernas
é como o nascimento de uma alma alada
é tu que sai voando
e me salva deste bosque obscuro
de um pesadelo de almas penadas...
Mariposa sem asas
Sou mariposa
mas não tenho asas
vôo com o bater das folhas
que caem em teu jardim...
Sigo nua - desorientada
por entre teus labirintos de amor secreto
me escondo em teu pensamento
dentro de uma gota d'água
te debulhas em lágrimas
estás a lavar a mim
Sou mariposa
corro solta ainda que sem asas
meu vôo é silencioso
por entre as gotículas que se erguem até o céu
Sou como flores
dente de leão - um pedido de alma calada
giro feito bailarina por sobre teu bosque
de árvores virís outras queimadas
Sou como fumaça de fogo
saindo de teu vulcão em tempo de fúria
desejando apenas voar próximo à tua boca
e ser engolida por tua imensa luz
Sou mariposa
mas não tenho asas
minh'alma é que é alada
vôo apenas em teus pensamentos
para estar sempre
sempre(!)
perto de ti...
mas não tenho asas
vôo com o bater das folhas
que caem em teu jardim...
Sigo nua - desorientada
por entre teus labirintos de amor secreto
me escondo em teu pensamento
dentro de uma gota d'água
te debulhas em lágrimas
estás a lavar a mim
Sou mariposa
corro solta ainda que sem asas
meu vôo é silencioso
por entre as gotículas que se erguem até o céu
Sou como flores
dente de leão - um pedido de alma calada
giro feito bailarina por sobre teu bosque
de árvores virís outras queimadas
Sou como fumaça de fogo
saindo de teu vulcão em tempo de fúria
desejando apenas voar próximo à tua boca
e ser engolida por tua imensa luz
Sou mariposa
mas não tenho asas
minh'alma é que é alada
vôo apenas em teus pensamentos
para estar sempre
sempre(!)
perto de ti...
Linhas
O vento que sopra não é puro acontecimento
é a junção de todas as respirações
que em conjunto impulsionam o tempo
E os batimentos
não são só condução de sangue
empurram também minhas mãos até as tuas
em lapsos ocultos
de quem só não coordena o coração
A chuva que cai não é lamento
são as lágrimas trançadas
de todos os rostos que por elas já foram tocados
Eu deito no chão
o orvalho que se estende
fica em minha blusa feito botão
mostrando-me tua saliva
saudosa de meu corpo
As nuvens são a pálpebra do céu
de quando em quando precisam fechar os olhos
e espalhar na córnea azul do infinito
a umidade que seu ser revela
Observo as árvores no horizonte
são teus dedos que brotaram em solidão
arranco uma raíz e levo comigo
posto que são tuas linhas do destino
às quais desejo pertencer...
Coloco-as em meu bolso
e vou ao teu encontro
sou mariposa que carrega consigo
a linha do amor desta nossa união.
é a junção de todas as respirações
que em conjunto impulsionam o tempo
E os batimentos
não são só condução de sangue
empurram também minhas mãos até as tuas
em lapsos ocultos
de quem só não coordena o coração
A chuva que cai não é lamento
são as lágrimas trançadas
de todos os rostos que por elas já foram tocados
Eu deito no chão
o orvalho que se estende
fica em minha blusa feito botão
mostrando-me tua saliva
saudosa de meu corpo
As nuvens são a pálpebra do céu
de quando em quando precisam fechar os olhos
e espalhar na córnea azul do infinito
a umidade que seu ser revela
Observo as árvores no horizonte
são teus dedos que brotaram em solidão
arranco uma raíz e levo comigo
posto que são tuas linhas do destino
às quais desejo pertencer...
Coloco-as em meu bolso
e vou ao teu encontro
sou mariposa que carrega consigo
a linha do amor desta nossa união.
Venta, amor...
Venta, amor...
Fecho os olhos e beijo o vento
ele deixa rubra minha face pálida
bem como quando nos vemos
meu sangue brota
nas veias de meu coração
flor da pele arrepio de pêlo
o vento frio me beija
e eu sinto teu cheiro
tão forte feito grama molhada
orvalho amanhecido em teus cabelos
fios d'ouro a voz plácida
calmo sussurro nos ouvidos meus
é teu gemido que o vento espalha
feito sementes nos jardins
gélidas mãos é o toque do vento
que com a distância
de teu calor se perdeu
Fecho os olhos e a brisa pára
vira tormenta
o amor que não ocorreu
ela geme a dor de ser engolida pelo vento
fazem amor - fazemos amor
tu e eu
na distância que nos separa
junto ao vento que me encontrou
num beijo de face avermelhada...
Venta, amor, no peito meu.
Fecho os olhos e beijo o vento
ele deixa rubra minha face pálida
bem como quando nos vemos
meu sangue brota
nas veias de meu coração
flor da pele arrepio de pêlo
o vento frio me beija
e eu sinto teu cheiro
tão forte feito grama molhada
orvalho amanhecido em teus cabelos
fios d'ouro a voz plácida
calmo sussurro nos ouvidos meus
é teu gemido que o vento espalha
feito sementes nos jardins
gélidas mãos é o toque do vento
que com a distância
de teu calor se perdeu
Fecho os olhos e a brisa pára
vira tormenta
o amor que não ocorreu
ela geme a dor de ser engolida pelo vento
fazem amor - fazemos amor
tu e eu
na distância que nos separa
junto ao vento que me encontrou
num beijo de face avermelhada...
Venta, amor, no peito meu.
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