terça-feira, 20 de outubro de 2009

Para minha amiga, Caroline...

Terça-Feira, VI de outubro, 2009.


Ternura


Recontorço-me na ternura de encontrar-me em teus braços

E com desejo nos olhos ponho-me faminta

A alimentar o pensamento farto

De paixão e de loucura


Como quem sabe qual lugar habita

Recrio o cenário exato

Na mente imaginativa

De quem perde aos poucos teu afago


E na ternura de teus gestos

Todos de despedida

Ponho-me a chorar

Lembranças de uma vida


E no avião embarco

E por um tempo vôo

E para longe parto

Carregando a lembrança de dias em que estive solta em teu tato.




Mim...

Terça-Feira, VI de outubro, 2009.

Alegria


A alegria resplandece em seu rosto

Brando e pálido

Na alvura de ser só

Num mundo de coisas novas


Renova seus medos e joga fora

Todas as coisas ruins que a amedrontam

Pega a chave e abre a porta

Para felicidade infinda que agora nasce


Porque faz de todos os momentos

Motivo de contentamento desenfreado

Sê liberta em pensamento

Posto que agora o imaginar é farto


Enfatizo a idéia de que amanhã talvez possa ser tarde

Sê alegre sempre e sempre

Com a alegria estampada na face

Branca e pálida, alvura em pó, neve rara a sorrir só...



Mim...


Terça-Feira, VI de outubro, 2009.


Paralelepípedos


Ando descalça pelas calçadas da vida

Que tortuosas maltratam a sola de meus pés...

Então vou para as vias

De paralelepípedos mal-cortados


Observando os desalinhos da vida

Naquele chão representados

Sento e vagueio

Pelo pensamento que me permeia


Levanto e caminho

Sigo rumo ao beco que me espreita

Encontro-me finalmente na praça

Onde vejo-te mirando uma estátua


Ao abraçar-te pega-me no colo

E coloca-me na fonte

Lava-me os pés com a água gélida do chafariz

Onde brincávamos nos falecidos anos.



Mim...


Terça-Feira, VI de outubro, 2009.

Infância


Minha infância querida nada me lembra

Posto que foi como mar a engolir as memórias

De tantas coisas ruins sobrou nas mãos

Os traços tortos de uma vida inglória


Queria atormentar o presente que me condena

A uma lembrança de coisas remotas

Mato as horas que me cercam

Na imensidão que me rodeia


Fazendo rodeios sobre quando fui criança

Por saber que no fundo

Minto tudo o que digo

Fui criança feliz a pular pelo mundo.


E assim fui pequena duas vezes

Vivendo uma e inventando outra

Cobrindo meu ser de vulto

Sobre um passado que só faz criar bruma.


Mim...


Terça-Feira, VI de outubro, 2009.


Aves a voar


Em meu céu aberto vejo aves

Que voam livres sobre minha cabeça

A me deixarem imaginando quando eu viria

A ser liberta como almejo


Vendo sempre e invejando

A descoberta de um mundo imenso

Velejo pelos sonhos tantos

De uma infância que já nem me lembro


Fazendo fingir minha amplitude

E tentando imergir em realidade incrédula

De quem não sabe nada do passado

E do presente que hoje a cerca


Vejo aves a voar

E voando lavo meus prantos

Estou a saltar de um penhasco

De onde vi, no fundo, meus primeiros anos.


Mim...


Terça-Feira, VI de outubro, 2009.


Varanda de sonhos


Na varanda onde varro meus sonhos

Venho a encontrar o vulto de amigos queridos

Que há muito já se foram

Para dimensões onde eu não habito


Porque se foram sem velar meu sono

Ficando a insônia de sonhar-me comigo

Estando a sós com meu próprio corpo

E tendo que olhar para meu íntimo


Encontro besta desaforada

A fazer caretas como quem me assusta

Velejo pelos oceanos e mares

De marés altas do meu Eu profundo


Posto que é meu inconsciente que me revela

Os mesmos estados caóticos de sempre

Ser-me sã numa realidade pintada

A varrer sonhos pela varanda noite a frente...


Mim...


Terça-Feira, VI de outubro, 2009.


Meu rio


Minha lagoa espaçada dá cabo para o pensamento

Que de vasto faz-se rio

A imergir no oceano imenso

Nos mares de minha vida


Profundos e imaculados

Como se alguém nunca houvesse se banhado

Nas águas límpidas de meu ser

Tão raro, na raridade de estar só


A sós com o pensamento divago

E voando mergulho em meu poço fundo

Na foz de onde surgem minhas idéias

Plantei bolhas para flutuar pelo mundo


E a margem que me limita

Faz meu rio ficar à deriva

Por estar longe de todos os outros

Em meio a uma floresta que ninguém habita.